Temas Científicos

Tuberculose

A Tuberculose (TB) é uma doença infeciosa bacteriana causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, com elevada morbilidade e mortalidade em todo o mundo, mas com grande impacto económico e social sobretudo nos países de baixa renda.

Apesar de hoje ter cura, regista ainda valores de incidência em algumas regiões do globo, como a África subsaariana, a Ásia ou a América Latina, tão elevados quanto aqueles que se verificavam globalmente na era pré-antibiótica. O diagnóstico precoce para implementação rápida de terapêutica diretamente observada e a prevenção da transmissão, continuam a ser os meios de controlo e combate mais eficazes. A vacina BCG (Bacilo de Calmette e Guérin), aplicada nos primeiros dias de vida e capaz de proteger contra as formas mais graves da doença, está hoje a cair em desuso e a ser substituída por outras formas de prevenção, dada a sua fraca eficácia em países de baixa incidência e a dificuldade em manter a sua produção a nível mundial, com a qualidade exigida. Muitos países estão a descontinuar o seu uso e a investir no diagnóstico precoce e no tratamento da TB latente, bem como a focar os seus esforços no controlo da emergência da TB multirresistente.

O trabalho do IHMT na área da TB conta com mais de 100 anos e centenas de publicações científicas nacionais e internacionais. Nas primeiras décadas, focou-se no apoio às populações e aos programas locais de luta contra a TB em todos os países e províncias onde o Instituto operava. A partir dos anos 90 do século XX, foram desenvolvidas, implementadas e avaliadas novas tecnologias de biologia molecular e de cultura bacteriana que tiveram um impacto importante no combate à TB e em especial à TB resistente em Lisboa, em Portugal e nos países da CPLP.

Em Portugal e no espaço da CPLP, foram estabelecidas parcerias clínico-laboratoriais e redes de trabalho e de formação que beneficiaram a investigação implementacional de novas técnicas e metodologias com impacto muito positivo na deteção precoce e precisa da TB, da TB resistente e de outras infeções e micobactérias. Exemplos de sucesso foram a Rede de Luta contra a Tuberculose Multirresistente na Grande Lisboa (2000-2012) e a rede FORDILAB-TB, ambas contando com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Com esta experiência, formámos parcerias e ligações duradouras com os programas de controlo e as redes laboratoriais de diagnóstico da TB nos países da CPLP que foram e continuam a ser a base da Rede de investigação em TB da CPLP (Rides-TB) e são hoje uma ponte para outras redes clínico-laboratoriais de sucesso como a REDE-TB do Brasil.
Igualmente, descrevemos e continuamos a estudar, em parceria com a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, a tuberculose multi e extensivamente resistente em Portugal com relevância científica para a sua estirpe primordial e indígena – a estirpe Lisboa – que se confronta hoje com a invasão de outras estirpes suscetíveis e resistentes importadas das mais variadas regiões do globo. Este conhecimento tem estado ao serviço das redes de investigação e controlo da CPLP e hoje trabalhamos no controlo desta endemia, e sobretudo das suas formas resistentes, em todos os países da CPLP.

Para o futuro, o IHMT tem vindo a apostar na investigação aplicada, no desenho e teste de novas abordagens de deteção precoce e no desenho de novas moléculas com potencial terapêutico para a TB, incluindo o desenvolvimento de testes in vitro para diagnóstico por nanotecnologia e, ainda, testes de avaliação da eficiência de esquemas de tratamento personalizado para a TB resistente. Dedicamos hoje particular atenção aos novos desafios colocados pela migração da TB e a TB no migrante.
Estes e outros capítulos que têm vindo a edificar a nossa história na luta contra a TB em Portugal e na CPLP, em paralelo com os mais recentes desenvolvimentos saídos da análise do genoma completo de M. tuberculosis, na implementação dos programas de controlo e das novas tecnologias na CPLP, nos desafios da ausência da vacinação pela BCG, no tratamento da tuberculose latente e resistente, irão ser abordados no 4º Congresso Nacional de Medicina Tropical e 1º Encontro Lusófono de Sida, Tuberculose e Doenças Oportunistas.


VIH/Sida

A síndrome da imunodeficiência adquirida (Sida) foi descrita pela primeira vez em meados de 1981, em São Francisco, nos Estados Unidos da América. Dois anos depois, foi isolado o vírus da imunodeficiência humana do tipo 1 (VIH-1) e identificado como o agente causador da Sida. Em 1986, com a colaboração de três médicos do Hospital Egas Moniz e investigadores do IHMT (José Luís Champalimaud, Jaime Nina e Kamal Mansinho) e da investigadora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa Odette Santos-Ferreira foi identificado e isolado um segundo tipo de vírus que também causava a Sida: VIH-2, que atualmente infeta cerca de 1,2 milhões de pessoas, sobretudo na África Ocidental, na Índia e em menor extensão na Europa (Portugal e França).

Mais de três décadas depois, a epidemia causada por VIH constitui ainda um dos desafios de maior relevância em saúde pública. Atualmente, estima-se que já tenham sido infetadas cerca de 78 milhões de pessoas por VIH-1 desde o início da pandemia, tendo-se registado cerca de 35 milhões de mortes a nível global.

A África subsaariana, em particular a região da bacia do Congo, é reconhecida como a origem da epidemia VIH-1. É também nos países da África subsaariana que se verificam maiores prevalências da infeção, sendo esta mais elevada em jovens adultos, com elevado impacto económico e social. Nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa em particular, observa-se uma grande diversidade de subepidemias, sendo Moçambique um dos países com maior taxa de prevalência estimada na população adulta (10,5%), seguido da Guiné-Bissau (3.25%), Angola (2.2%), Cabo Verde (1%) e São Tomé e Príncipe (últimos dados de 2008/2009 indicam uma prevalência de 1.5%).

Nos países ocidentais, a explosão da pandemia resultou de uma elevada dinâmica de transmissão da infeção no final da década de 70/início de 80 do século XX, sobretudo nos grupos de risco de homens que têm sexo com homens e utilizadores de drogas injetáveis. Os padrões de transmissão da infeção têm variado bastante desde o início da pandemia: embora o grupo dos homens que têm sexo com homens se mantenha de risco elevado para o VIH em Portugal, os heterossexuais continuam a corresponder ao maior número dos novos diagnósticos, sendo as populações dos migrantes e trabalhadores do sexo particularmente vulneráveis. As políticas de prevenção têm também mudado bastante, sendo de destacar a recente tendência para a utilização da terapêutica antirretroviral para prevenir a propagação da epidemia (Profilaxia Pré-Exposição e Tratamento para Todos).

Nos últimos anos, a infeção pelo VIH passou a ser vista pela comunidade como uma doença crónica de relativo fácil controlo, uma perceção que irá ser debatida na presença de vários intervenientes nacionais e estrangeiros nesta área, na perspetiva da investigação biomédica e clínica, mas também na do cidadão infetado e das comunidades e organizações de defesa dos seus direitos.

O IHMT tem estado envolvido, nos últimos 25 anos, na caraterização da história evolutiva e diversidade genética da pandemia de VIH, bem como no estudo das resistências aos fármacos antirretrovirais e nas mutações de resistência associadas. Esses tópicos serão abordados no 4º Congresso Nacional de Medicina Tropical e 1º Encontro Lusófono de Sida, Tuberculose e Doenças Oportunistas, assim como outros temas prementes na discussão internacional: a simplificação da terapêutica, a infeção por VIH nas populações migrantes e refugiadas, entre outros. 


Doenças Oportunistas

Pessoas com sistemas imunológicos saudáveis podem estar expostas a certos vírus, bactérias ou parasitas e não têm nenhuma reação a eles, mas as pessoas com VIH/Sida podem sofrer infeções graves, conhecidas como infeções "oportunistas" (IOs). As infeções são consideradas "oportunistas" quando os microrganismos que as provocam tiram proveito do sistema imunológico enfraquecido do hospedeiro e causam doenças que podem ser muito debilitantes e que, se não forem tratadas, podem evoluir para a morte. As IOs são sinal de imunodepressão. A maioria das IOs fatais ocorre quando a contagem de células T CD4+ está abaixo de 200 células/mm3. Apesar do uso da quimioprofilaxia, vacinação e melhores estratégias de gestão de infeções oportunistas agudas, e do uso generalizado da terapêutica antirretroviral potente de combinação (TARVc), nos países de média-alta renda, as IOs ainda são a causa mais comum de morte para os doentes com VIH/Sida, enquanto nos países de baixa-média renda (onde a maioria dos infetados por VIH residem), não se conhece claramente a prevalências das IOs, sendo por isso o seu controlo deficiente.

O CDC-Atlanta, Estados Unidos da América, publicou uma lista de mais de 20 IOs consideradas definidoras de Sida. Se uma pessoa é seropositiva para VIH e se tem uma ou mais destas IOs, então será diagnosticada com Sida. Pneumocistose, toxoplasmose, criptosporidiose e infeções provocadas por certas espécies de microsporidia são algumas das IOs mais comuns em doentes com VIH/Sida.

O trabalho do IHMT na área das IOs, em geral, tem mais de 20 anos e começou por ser desenvolvido pela Unidade Ensino e Investigação de Parasitas Oportunistas/VIH e Outros Protozoários, atualmente, Grupo de Protozoários Oportunistas/VIH e Outros Protozoários. Inicialmente, focou-se no diagnóstico, estudos de prevalência e genotipagem em isolados de humanos, alargando-se o estudo à análise de isolados de animais e amostras ambientais (água de consumo público) no caso de infeções com possível transmissão zoonótica e/ou hídrica.

Ao longo destes mais de 20 anos, tem sido estabelecida colaboração com hospitais da área da Grande Lisboa e de outras regiões do país procurando beneficiar a região e o país da existência de tecnologias altamente específicas e de grande sensibilidade nos nossos laboratórios, para o diagnóstico laboratorial e caracterização daqueles patógenos oportunistas e, assim, ajudar no seu controlo. Trabalhos de cooperação têm sido estabelecidos com grupos de investigação dos EUA e de vários países europeus e, também, com os países ibero-americanos e de língua oficial portuguesa, nomeadamente Brasil e Cuba, com a formação de vários investigadores nas áreas de investigação da pneumocistose, criptosporidiose e microsporidiose; e Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, com formação de investigadores e técnicos de laboratório no diagnóstico daquelas infeções oportunistas.

Esta cooperação tem permitido a publicação de vários artigos em revistas científicas internacionais, contribuindo para a divulgação e conhecimento destas patologias e o seu controlo atempado nos países de baixa-média renda da África subsaariana. Vários projetos de investigação e atividades de divulgação, financiados pela União Europeia, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, MSD, Gilead, Fundação Calouste Gulbenkian, para além de financiamento próprio do IHMT, têm sido desenvolvidos.

No futuro, apostamos no desenvolvimento de novas ferramentas de diagnóstico rápido, barato e altamente sensível que possam ser facilmente implementadas em regiões de baixa-média renda, assim como no desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas para as doenças oportunistas, nomeadamente a diarreia por Cryptosporidium spp., as quais permitam superar a baixa eficácia dos tratamentos disponíveis atualmente.

Estes e outros assuntos, serão abordados no 4º Congresso Nacional de Medicina Tropical e 1º Encontro Lusófono de Sida, Tuberculose e Doenças Oportunistas.